O livro Mamãe, como eu nasci?, do sexólogo Marcos Ribeiro, com ilustrações de Bia Salgueiro, trata de um tema banalizado em nossa sociedade: o sexo. Sim, o sexo está banalizado, não se pode negar. Vivemos numa sociedade onde refrões altamente sexualizados se reproduzem e perpetuam nas bocas dos jovens e crianças, então temos "chupa, chupa que é de uva", "toma, negona, toma chupeta, toma, negona, na boca e na bochecha", "beijar na boca é coisa do passado, a nova onde é, é namorar pelado" e por aí vai. A televisão contribui para popularizar não somente essas "músicas", mas também para protagonizar cenas com pessoas semi-nuas, se agarrando e se beijando (quando não algo a mais) nos horários em que as crianças ainda não deveriam estar na cama.
Mas voltemos ao livro. A polêmica toda se deu quando o Ministério da Educação e Cultura (MEC) aprovou o livro, enviando-o gratuitamente às escolas públicas do Recife em 2010. O público de abrangência seria 25 mil alunos com idade entre 7 e 10 anos de idade. Segundo os pais destes alunos, o livro é impróprio para crianças muito pequenas, deveria ser destinado a pré-adolescentes, não a crianças. Algumas crianças esconderam o livro em casa, de modo que seus pais não o encontrassem. Um menino de 8 anos, da Escola Municipal Herbert de Souza, no bairro Santo Amaro, teria dito "Oba, a gente vai ter aula de safadeza!". Uma menina disse que escondera o livro de seu pai porque, caso ele o encontrasse, iria até a escola "fazer um barraco".
Alguns alegam que o problema do livro está nas ilustrações, que mostram, entre outras imagens, uma menina se masturbando em frente à tv, um menino se masturbando dentro de uma banheira, um casal nu aos beijos, uma menina com um espelho examinando sua vulva. As ilustrações não são fotográficas, são desenhos com características bastante infantilizadas (o livro, na íntegra, está no vídeo aí em cima).
Não quero parecer puritana, mas quero fazer uma crítica ao livro - uma crítica pessoal, que reflete minha experiência pessoal e minha avaliação pessoal do material. Não quero com isso influenciar ninguém a pensar como eu - aliás, cada um que assista ao vídeo e tire suas próprias conclusões.
Uma das justificativas para a adoção do livro nas escolas públicas, segundo a Secretaria de Educação do Recife foi "perceber que faltava uma ação educativa para as crianças do 4º e 5º ano, já que nessa idade a criança começa a receber informações distorcidas e incompletas sobre sexualidade. E o estímulo vem da TV, internet e músicas." Nos 4º e 5º anos do Ensino Fundamental, as crianças tem 10 e 11 anos, mas a indicação do livro é a partir dos 7. Concordo que a partir dos 10 anos o pré-adolescente precisa ser direcionado adequadamente com relação às questões da sexualidade, porque senão ele vai procurar informações com quem quer que as conceda. Sanar a curiosidade púbere com colegas, vizinhos, amigos, pode levar o pré-adolescente a receber informações distorcidas. Nesse sentido, um livro seria adequado.
O livro em questão trata de um assunto polêmico, a masturbação. Traz ilustrações sobre o tema e diz que "As pessoas grandes dizem que isso vicia ou 'tira a mão daí que isso é feio'. Só sabem abrir a boca para proibir." Essa afirmação do livro, que para a criança foi escrito por um especialista (porque as crianças acreditam em tudo o que lhes diz o livro ou o[a] professor[a]), a faz acreditar que quando um adulto a proíbe de alguma coisa, está errado. A frase do livro é bem clara: "(As pessoas grandes) Só sabem abrir a boca para proibir." Isso tira a autoridade dos pais sobre os filhos, não só no concernente a esta questão da masturbação, mas na vida dos pequenos como um todo. Se o escritor não tinha a intenção de veicular esta ideia, ainda que subliminarmente o acabou fazendo. Num país onde cada vez menos vemos pais que saibam ter autoridade para educar seus filhos, num país onde a cada dia mais vemos filhos desautorizando seus pais em público, num país onde filhos batem nos pais e estes se calam por vergonha de não terem tido autoridade para impedir a agressão, queremos mesmo um livro que diga às crianças pequenas que os adultos só sabem abrir a boca para proibir? Eu não quero!
Em alguns trechos do livro, o autor usa o termo "gostoso" para se referir às questões da sexualidade, não somente ao ato em si, mas à ereção, à ejaculação, ao orgasmo. Pré-adolescentes talvez tenham maturidade suficiente para lidar com isso. Mas em se tratando de crianças, não seriam estas afirmações um modo de as expor precocemente à sexualização? Especialistas dizem que crianças tendem a reproduzir aquilo a que são expostas. Quando uma criança pergunta como o bebê foi parar na barriga da mãe, não quer dizer que esteja pronta para saber todas as etapas do ato sexual. Expor crianças a situações sexuais para as quais não estejam psicologicamente preparadas pode ser abrir uma porta para comportamentos precocemente erotizados, e talvez até mesmo à pedofilia, uma vez que, movida pela curiosidade de experimentar esta sensação "gostosa", ela "aceite" a experiência, venha de onde vier. "Esta situação de sensualização precoce provoca aumento de ansiedade nos pais, estimula a violência sexual infantil, a iniciação sexual precoce, a pedofilia e, nas classes baixas, a prostituição infantil", diz a psicanalista gaúcha Norma Escosteguy (aqui).
Segundo minha própria experiência, não há nada no livro que eu também não tenha lido em minha adolescência. Note bem: a-do-les-cência, não infância. Descobri aos sete anos o que era uma relação sexual. Na época, a tv veiculava propagandas de combate à aids. Uma noite, perguntei a minha mãe: "O que é sexo?", ao que ela me respondeu "Sexo masculino, sexo feminino". Na hora, me dei por satisfeita pela resposta, até ver novamente a propaganda, que falava em não fazer sexo sem camisinha. Perguntei-lhe como é que se fazia "sexo feminino e sexo masculino" ao que ela não teve outra alternativa senão me contar como é que os bebês eram feitos. Lembrando friamente, aos 7 anos, acho que não estava preparada para receber essas informações, porque me lembro que fiquei chocada. Lembro-me que muitas piadas pareciam fazer sentido, tudo o que escutava passou a ser "maliciado", além do fato de que contei para todas as minhas amiguinhas da primeira série, porque eu precisava desabafar aquilo com alguém. Definitivamente, eu não conseguia guardar aquilo para mim. Contudo, leitura informativa relacionada à sexualidade passei a consumir após os 13, 14 anos. Aí, sim, tinha maturidade emocional para lidar com aquilo que passava a descobrir.
Voltando ao livro, o psicólogo infantil Carlos Brito diz que o problema não está na ilustração do livro, mas sim na forma como ele foi trabalhado na escola. Afinal, não é um livro como o da Branca de Neve, que você disponibiliza às crianças e pronto. "Ele exige reflexão e um trabalho de orientação mais amplo. É uma pena que haja essa resistência de alguns pais, já que essa obra é muito séria e adequada a pré-adolescentes", opinou. O que me pergunto é se os professores das escolas públicas estão adequadamente preparados para trabalhar o livro com seus alunos. Quem conhece, sabe como está a situação das escolas públicas em nosso país. Considerando os índices de avaliação nacional e internacional, sabe-se que a escola sequer dá conta de trabalhar convenientemente os conteúdos científicos. Algumas escolas não estão conseguindo nem mesmo alfabetizar plenamente seus alunos. Seria mesmo possível dar educação sexual adequada aos pré-adolescentes no âmbito escolar? Não acredito.
O filósofo Olavo de Carvalho criticou a distribuição do livro para as escolas públicas. Ele disse que o dinheiro público não deveria ser investido num livro que ensina as crianças a se masturbarem e a desobedecerem seus pais. Olavo tem um programa de rádio chamado Outspeak, que vai ao ar uma vez por semana em seu site e é conhecido por sua "irreverência" nas palavras (por muitas vezes diz até alguns palavrões, principalmente quando se vê indignado com alguma questão), mas é defensor da família e dos bons costumes.
Na verdade, o livro não é de todo ruim. Acho até que, dependendo da idade à qual se destine, o livro é bom. A polêmica toda foi gerada porque o livro foi parar na mãos das crianças sem nenhum tipo de orientação. Não acho que trabalhar a sexualidade com crianças seja função da escola (na verdade, nem com adolescentes é função da escola, mas com alguns, se a escola não o fizer, os "amigos" o farão). O fato é que expor crianças a partir dos 7 anos a informações para as quais elas não tem maturidade para lidar é abrir uma porta que deveria permanecer fechada até a puberdade. Quem conhece as consequências de uma sexualização precoce sabe do que eu estou falando.
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